Capítulo II — O Acorde do Amanhecer
Capítulo II — O Acorde do Amanhecer
O despertador tocou cinco minutos antes do sol vencer a linha do horizonte. Pela primeira vez em
muitos meses, o peito não acordou apertado pela urgência de procurar o que já não estava ali. A
tempestade da noite anterior tinha deixado um rastro de terra molhada e folhas caídas no quintal,
mas o céu que se abria na janela era de um azul limpo, lavado.
Preparei o café — apenas uma xícara desta vez, sem a pressa boba de outros tempos. O vapor
subia desenhando formas abstratas no ar da cozinha, mas meus olhos já não tentavam enxergar o
seu rosto no meio da fumaça. Sentada à mesa, saboreei o primeiro gole em um silêncio que,
curiosamente, já não parecia um vazio intransitável. Era espaço. Espaço para o dia que começava,
para os passos que eu ainda precisava dar e para a vida que insistia em continuar correndo em
minhas veias.
Terminei o café e decidi ligar o velho rádio da sala, um hábito que eu havia abandonado desde o dia
em que o silêncio se tornou meu escudo. Girei o botão analógico e, como uma ironia bonita do
destino, o choro do violão e o ponteio da viola começaram a ecoar pelo ambiente, anunciando a sua
canção mais conhecida. Era a sua voz. Aquela mesma voz que outrora comandava coros de
milhares de pessoas em arenas iluminadas, arrastando multidões com a verdade de quem cantava a
alma do povo, e que tantas vezes cantou baixinho no meu ouvido para me fazer dormir.
Fechei os olhos por um segundo, esperando o habitual aperto no peito, a lágrima pesada, o choro
que me paralisava. Mas eles não vieram. Em vez de dor, senti um calor manso me abraçar. Sorri ao
perceber que a sua arte tinha se tornado o seu jeito de continuar vivo no mundo, e que eu finalmente
conseguia ouvi-lo sem me quebrar por dentro. A música preencheu a casa, não como um fantasma
que assombra, mas como uma trilha sonora que me abençoava a seguir em frente. Pela primeira
vez, eu não mudei de estação; eu apenas cantei junto, baixinho, sabendo que a sua voz seria para
sempre a minha melodia de fundo, mas que o show da minha vida precisava continuar.
©nilzacarvalho

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